..o meu banheiro:

Este é o meu banheiro. Meu, meu, não, claro, nosso, meu e dos vizinhos de andar da casa de estudante onde atualmente moro. Os vizinhos, uma chinesa de nome sonoramente composto por várias consoantes e um i, e um alemão do leste. Três quartos pequenos, uma ampla cozinha e este banheiro educada e civilizadamente dividido entre nós.
Avaliemos, pois, este banheiro. Trata-se, como os senhores e as senhoras podem observar, de um banheiro comum, relativamente espaçoso, coberto por azulejos (os do chão são de estética mais que duvidável, mas vá lá), um box pro chuveiro, um aquecedor a gás ali no canto pro rigoroso inverno alemão, pia, espelho e outros apetrechos não menos comuns.
Atentemos, agora, para um pequeno detalhe, um mínimo mas persistente detalhe, um mínimo mas persistente e visível detalhe, um mínimo, persistente, visível e quase-irritante detalhe: aquele pequeno adesivo perto da descarga.
Poderia passar despercebido por muitas donzelas, com certeza, mas os homens, porém, têm muito mais possibilidade de ter suas respectivas atenções chamadas a esse pequeno detalhe, pois no “momento urinante” permanecerão de frente para o dito cujo adesivo, que são dois, na verdade.
Um close, por favor:

Ahá, aí está o pequeno porém persistente e bastante visível quase-irritante detalhe. Não são necessários grandes conhecidos da “bela porém esquiva língua alemã”, como bem conceituou o mestre João Ubaldo, muito antes pelo contrário: até analfabeto, seja em alemão, português ou ucraniano, saberia interpretar o tal adesivo.

E mais: não bastasse a língua universal dos desenhos auto-explicativos, o adesivo da esquerda trata-se da versão escrita do adesivo da direita. Traduzo, pois:
Um den Toilettenrand nicht zu bespritzen,
dürfen hier auch Männer sitzen.
E com rimas, percebam, mas na minha versão não têm:
Pra não respingar a tampa da privada,
homens também podem sentar aqui.
Na “bela porém esquiva língua alemã” existem uns tais de verbos modais, quais sejam dürfen, sollen, willen, mögen e können, muito usados pra várias coisas, inclusive pra sobreviver poucos dias bebericando uma cervejinha, tenhas certeza. Tanto é que logo nas primeiras aulas de alemão esse assunto é tema das professoras e desespero dos alunos. Existe uma diferença muito sutil entre esses tais verbos aí, diferença essa que faz com que eles signifiquem coisas como “pode mas não deve”, ou outro “deve mas não pode”, o outro “não poderia, mas tem capacidade”, o outro “consegue, mas não pode”, o outro “é proibido, mas forçando até vai”, o outro “pode, deve mas não consegue” e por aí vai. Sutilezas essas que só alguém como Gutemberg, Calvino, Goethe ou Nietzsche poderiam esclarecer. Eu, fora!
Mas a título de esclarecimento do exemplo, vamos dizer que esse “dürfen” aí seja traduzível como “podem”, mas quer mesmo signficar “devem”, tapa de luva é isso aí!
O que numa versão menos delicada podia ser:
Pra não espirrá dos lado
Senta, seu bosta!
…que com homem a gente sabe que tem que ser meio na ignorância.
Pois que faz 4 ou 5 meses que moro nesta casa de estudantes e, atenção para o momento Confissão do Dia, até agora não tive o menor pudor de dar a minha boa e tranqüila mijada de pé, inclusive dando a tradicional balançada no instrumento depois de terminado o processo, muito embora, como diz a sabedoria popular, não adianta balaçar, o último pingo sempre é da cueca.
Eu sou um guri limpinho, creiam, muito asseado, daqueles que se preocupa em não respingar nas bordas da privada não apenas pelo desconforto que deve ser pras moças que ali sentarão na seqüência ou pros moços que liberarão seus respectivos sólidos sentadinhos, mas também por simples e sincero respeito. Se estou em casa de outrem, então, ainda mais! Obviamente a tampa eu sempre levanto, e faço mira lá na águinha no fundo do poço (as meninas que jamais pensaram nisso, estão convocadas a nos acompanhar meu raciocínio num elucidante exercício de abstração, não é tão difícil assim, sejamos sinceros, aqui todo mundo é adulto ou, como novamente a sabedoria popular nos salva, quem já viu, conhece, quem não conhece não sabe o que é). Confesso até que em certos momentos, se acontecer do jato eventualmente espirrar na bordinha, eu até pego um pedaço de papel higiêncio e limpo, sem problema algum. Claro que existem casos mais complexos, de manhã cedo por exemplo, quando o buraquinho pelo qual o jato sai não tá bem aberto e você mira na águinha mas acerta a parede ou, no mínimo, a perna (rapazes confirmem, por favor).
Pois que como eu dizia, cá estou morando há 4 ou 5 meses e nunca havia obedecido o persistente adesivo, bem como o persistente poeminha. Então pensei, mas peralá, se eu sou tão a favor de falar a língua completada por certas atitudes inerentes à cultura alemã, tomar no mínimo um balde de cerveja por dia, por exemplo, nada mais justo que eu também assimile certas atitudes que não condizem de todo com minha própia cultura, mijar sentado é ao que eu me refireria.
E mais: eu não sou desses que pensa que isso poderia ser um primeiro passo para um “caminho sem volta”. Não senhores, não há perigo, lhes garanto, mesmo estando longe do pago e sem tomar a autêntica água da Fonte Ijuí por todo esse tempo. Ao contrário do que diz minha amiga Mary, eu não gosto do que balança. O contrário, nesse caso, não é que ela diz que eu gosto, opa, opa, ela é que diz que gosta do que balança e pra mim tá bem assim, goste quem gostar e do que gostar, cada macaco no seu galho e todos na mesma árvore, olha aí a sabedoria popular de novo, minha gente.
Resolvi então assumir a responsabilidade e a atitude totalmente germânica de acocar pro mijo nosso de cada dia. Ora, ora, que mal tem, pensei comigo, muito antes pelo contrário, isso só vai ajudar mesmo é no meu aprendizado e assimilação da “bela porém esquiva”. Em Roma, faça como os romanos, não tenho cansado de repetir quando o negócio me é confortável, que eu seja justo comigo mesmo e vamos a sentar para mijar, concluí. E mais, que era pra evitar qualquer tipo de auto-engano: não levanto enquanto não mijar um tantinho, até porque a bexiga tá um tanto cheia pelas deutsche Bier recém tomadas, isso ajuda no processo todo. E sentei.
Ah, amigos, vocês não sabem no mato sem cachorro no qual eu me enfiei.
Conto, pois.
Eu nunca fui daqueles frescos, tipo “só consigo ‘ir aos pés’ na minha casa, na minha poltroninha, com o meu jornalzinho” ou qualquer coisa do tipo. “Ir aos pés” por si só eu já considero uma frescura tamanha! Barreada a gente dá em qualquer lugar quando o negócio aperta, ou afrouxa, pensando bem. Mijar então, nem se fala! Óbvio é que as moças saem em certa desvantagem, mas o que é que eu posso fazer? Deixem-me aproveitar meu físico de macho e direcionar pra onde mais me convier, talvez até fazendo chuveirinho que é pra dar um toque cômico à situação, que mal tem.
E você, caro leitor, não vá fazendo cara de nojinho, ahá, bem sei que tu também já te desapertou em situação delicada qualquer dia desses. Mesmo você, leitora a quem muito respeito eu devo, já deve ter agachado no meio da rua, indo ou voltando para aquela festa elegante ou coisa do tipo, e liberado os líquidos que seu corpinho bonito e esbelto não queria mais, não venha se fazer de vítima agora. Segue, segue…
No auge da minha bagaceirice, inclusive, entre os anos de 1999 e 2000, quando eu morava aqui na Alemanha, eu tinha uma disputa ferrenha com um amigo pra ver quem mijava em local mais importante, e aí vêm outras confissões, se tiver sido algum crime tomara que já tenha caducado. Não bastava mijar e dizer que tinha mijado, havia que se mostrar uma prova fotográfica do ato, o que não era lá muito educado da nossa parte, é verdade, mas escondíamos o instrumento principal da ação e alguém à toa pra registrar sempre tinha, era uma disputa muito séria, essa nossa. Pra se ter uma idéia, locais como o Canal da Mancha, o Parlamento Alemão em Berlim, o monumento do átomo em Bruxelas, Cannabis-Coffe na Holanda e outros locais representativos foram, por assim dizer, batizados por nós. Ao fim, mesmo contra a importante conquista do amigo lá no Coliseu de Roma, eu ganhei a disputa: Torre Eifell, e lá de cima! Quem duvida, escreva aí que mando uma cópia das fotos mais tarde.
Mas resolvi sentar no vaso do meu atual deutsche banheiro, afinal.
Arriei as calças, bati leve na barriga meio inchada pela cerveja, estiquei os braços como quem vai dar um mergulho, e, certo de que a situação toda não levaria mais de 30 segundos, sentei. Mas ao sentar, parou tudo. As pernas enrijeceram, os neurônios estacionaram, os joelhos congelaram, o pescoço endureceu, os músculos da bunda retesaram, os ombros foram à frente, os pêlos pubianos se eriçaram, o coração parou de bater, e a uretra fechou.
Ah, amigos, minha uretra fechou como eu nunca pensei que um quase-minúsculo canalzinho daqueles poderia fechar. Eu ali todo duro, não respirava, não conseguia me mexer, os olhos querendo saltar das órbitas e eu, que a essa altura já tinha percebido que a situação tendia a complicar mais e mais, pensei que diacho tou fazendo aqui sentado quero provar o quê pra quem vou é levantar imediatamente e… não, eu não conseguia me mexer.
Forcei as pernas. Nada. Fixei as palmas dos pés no chão e puxei cabeça pra cima. Nada. Quis empurrar as coxas com os braços, forçando o pescoço pra cima como quem procura o ar quando vem a maior onda. Nada. Empurrei todo o corpo pro lado na esperança de que um quase tombo pudesse me tirar daquela paralisia ridícula, mas nada. Nada, nada, não, pois a bunda roçou um pouco na tampa mas eu continuei ali parado, teso, bexiga cheia, uretra fechada, corpo trancado.
Por dentro da boca, a língua roçou meus dentes cerrados. Os dedos das mãos agarravam-se cada vez mais às coxas, e os dos pés contorciam-se dentro dos tênis. Na garganta, nada pra engolir. No pulmão, nada pra expirar. Eu não sentia o coração bater e um filete de suor escorreu pela fronte direita. Pensei em gritar, mas além do ridículo da situação eu não conseguia abrir a boca, e agora o que é que eu faço, maldito adesivo auto-explicativo.
Quis respirar fundo, isso sempre funciona, respira-tranca-expira-ahhhhh e dá-lhe mijadinha amiga… mas o pulmão não deixava. Mal e mal umas cafungadas esporádicas que só faziam entrar mais ar e apertar tudo ali por dentro da barriga. Mesmo assim, consegui raciocinar que quanto mais o pulmão enchesse, mais iria pressionar a bexiga de algum jeito ou de outro, e daqui a pouco eu estaria mijando aqui sentadinho aprendendo a língua alemã, e cafungava e cafungava e a barriga crescia em pequenos espamos e eu não conseguia soltar o ar e sentia a bexiga sendo apertada e a uretra que estava quase, quase abrindo e… agora vai abrir… atenção… cafunga mais, cafunga mais…
em vão! Tudo em vão. Meus parcos conhecimentos de fisiologia não conseguiram solucionar a questão e passei pra uma próxima esperançosa tentativa, ao passo que o desespero crescia mas enquanto eu ainda conseguia pensar com alguma lógica.
Parti pra psicologia, afinal eu estava na terra do Freud e do Joung, isso devia ajudar: ora, ora, minha bexiga velha de guerra, vamos falar só eu e você, quantas vezes nós já seguramos juntos aqueles mililitros que teimavam em sair mas que por impossibilidade de situação não podiam ser liberados, tenha sido um ônibus sem banheiro, uma rua movimentada, uma prova importante, não é agora que vamos nos entregar, hehe, minha amiga, conhecida de tantos anos, então vamos lá, juntos, eu e você, nós dois, querida bexiga, vamos empurrar toda essa cerveja que está esperando pra sair e vai sair agora… vamos lá… é UM… vamos imaginar uma torneira pingando… é DOIS… xiiiiiiiiiii… xiiiii… bem como a mamãe fazia quando era pequeneninho… pensemos em chuvas, cachoeiras, o mar durante a tempestade, muita água por todo lado… e é TRÊS! Agora vai, sinta o xixi saindo… vai… vai… tá saindo, tá saindo… força, aperta… nóóóós… vaaaaamos… conseeeeeg… e trancou tudo de novo!
Então pensei “mas peraí, fui eu quem inventou essa história toda, ah, veja lá, quantas vezes eu já mijei sentado enquanto atuava no número dois, sejamos coerentes, não é uma situaçãozinha boba dessas, de quase brincadeira, que vai me tirar tanto do sério, hahaha, essa foi boa, que piadista que meu próprio corpo sabe ser comigo mesmo…” e aos poucos meu corpo foi relaxando, relaxando, relaxando… e quando forcei a bexiga, tudo voltou ao que era antes.
Estático, parado, teso, meu corpo petrificado, onde é que já se viu uma coisa dessas, era o que os poucos neurônios que conseguiam processar alguma coisa pensavam. E eu ali, situação delicada já desesperadora, querendo provar pra mim mesmo que dominar uma língua é questão de atitude inclusive nos momentos mais íntimos do ser humano, sem interlocutor, sem platéia, sem ninguém, eu e eu mesmo, corpo e alma conjugados numa mijadinha que era pra ser tranqüila, tranqüila, mas não era.
Meninas, moças, jovens, mulheres, senhoras, garotas de toda a idade, situação social, nível de escolaridade etc. e tal: a partir de hoje, faço questão de registrar publicamente, eu respeito muito mais, e COMO eu respeito, as suas dificuldades em não terem a possibilidade de liberar seus líquidos internos nas situações das mais variadas. Se pra mim, que até queria liberar a cerveja acumulada na minha bexiga naquele momento, já foi algo torturante, pra vocês, quando querem mas a situação não permite, deve ser ainda pior.
O resultado daquilo que era pra ser uma simples experiência evacuativa fora dos padrões tradicionais aos quais eu me enquadro foi esse que vos escreve, depois de longos e torturantes minutos, forçando desde a unha do dedão do pé até o último fio dos seus já quase raros cabelos pra conseguir, com um insistência interna que nem eu sabia que podia produzir dentro de mim, uns dois ou três modestos pingos, a partir dos quais dei minha tortura por finalizada e dessa vez nem pra cueca sobrou.
Amigos lhes digo, dominar uma língua é questão de atitude sim, questão de assimilar atos difetentes que não condizem com os seus, desde o caminhar na rua observando com cara de quem entende as placas até o xingar quando lhe escapa algo da mão, mas certas coisas não precisam ser experimentadas, nem que pra isso tenham que ser condenadas duas ou três preposições que serão usadas erroneamente até o fim dos seus dias, e que pensando bem nem têm tanta importância assim.
Prost!